Crente pode apostar em “bets”, jogos, “tigrinho” e loterias?

Crente pode apostar em “bets”, jogos, “tigrinho” e loterias?

O Brasil foi tomado de assalto pelas bets. No pais onde até bingos eram priobidos, agora veicula-se propagandas de sites de apostas livremente. Leis foram afrouxadas e a atividade, agora, é legal. Em 2024, os sites de apostas estão investindo pelo menos R$ 450 milhões em patrocínios que cobrem praticamente todos os times do Brasileirão. E o que entendemos é: se estão investindo tanto, devem estar ganhando ainda mais.

O “boom das bets” trouxe à tona uma questão que sempre esteve morna no ambiente cristão brasileiro: apostar é pecado?

A resposta sempre foi “sim”, e esta era uma conclusão fácil, pois a jogatina era condenada não apenas pelas “leis de Deus”, mas também pela “lei dos homens”. Mas as coisas estão mudando, o que exige de nós revisitarmos a questão.

Onde, na Bíblia, está escrito que não pode apostar?

Aqui começam os problemas. Não está. Não há verso bíblico condenando diretamente o ato de jogar. Sequer há alguma história onde algum personagem bíblico tenha jogado ou apostado algo visando ganhar dinheiro em troca. Isso torna difícil traçarmos uma “teologia do jogo”.

O mais próximo que podemos chegar é o ato descrito na Bíblia como “lançar sorte”. Não se tratava exatamente de apostar algo, mas de uma espécie de “sorteio” para tomada de decisões de maneira imparcial.

Em Atos 1:26, há o relato de um desses sorteios para escolha do apóstolo que substituiria Judas Iscariotes; o livro de Josué (18:10) relata outro desses sorteios, realizados para a justa divisão da Terra Prometida entre os israelitas. Ambos episódios dão a entender que, embora houvesse o sorteio, era Deus quem decidia pelo “contemplado”.

Mas, podemos reparar que depois da dispensação do Espírito Santo (Atos 2), não há mais relatos bíblicos sobre essa prática. O que há é a oração em busca da guia divina para decisões importantes.

Logo, estudando esses episódios, ainda é dificil cravar uma resposta sobre o contexto atual de apostas em jogos.

Sendo assim, talvez fosse bom avaliarmos justamente isso: o contexto atual de apostas em jogos.

O contexto atual de apostas em jogos: vício, crimes, lavagem de dinheiro…

O que sabemos sobre apostas? Primeiro, que elas viciam. Sabemos por causa da história do avô de alguém próximo que sempre gastava toda sua aposentadoria no bingo. Sabemos por causa dos relatos — raros, no contexto brasileiros de proibição de jogos — de pessoas que perderam tudo, venderam casa, se envolveram com agiotas e até foram mortas por conta de dívidas de jogo.

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Mas, basta uma pesquisa simples na internet e encontraremos diversas notícias e relatos fresquinhos de casos e mais casos de viciados em apostas online. O que se sabe é que apostas superestimulam o nosso sistema de recompensas (todo aquele lance com dopamina que você já deve ter ouvido em algum lugar), o que acaba nos viciando. Alías, trata-se mesmo método utilizado por sites pornográficos e redes sociais para manter a nossa atenção. Vejam só…

Outra coisa que sabemos sobre jogos de azar é a sua relação, sempre muito próxima, com a criminalidade.

Aqui no Brasil, mesmo com jogos de azar sendo proíbidos durante décadas, o jogo do bicho sempre operou à parte da lei, se aproveitando da viciante promessa de dinheiro fácil para construir um verdadeiro império do crime — à lá Poderoso Chefão — , envolvendo corrupção policial e política, milícias, assassinatos, entre tantos outros crimes. Basta mais uma busca no Google e veremos como organizações criminosas se aproveitam dos jogos de azar para lavar dinheiro sujo.

Sobre esse assunto, o Globoplay tem o documentário “Vale o Escrito”, que mostra os bastidores do jogo do bicho carioca e como, através dos tempos, eles foram se tornando um poder paralelo na cidade.

Ok — você deve estar pensando — , mas agora os jogos são regularizados pelo estado, o que deve inibir (pelo menos teoricamente) a ação do crime. Ainda é pecado?

Jogos legalizados são pecado?

O jogo legalizado ainda é um jogo, feito para que você perca e a banca ganhe. Ele ainda é viciante, e como qualquer outro vício, pode destruir vidas e famílias. O jogo, ainda que legalizado, é uma promessa falsa de ganho financeiro.

O jogo, ainda que legalizado, ainda comunicam fortemente com a nossa avareza e ganância. E, talvez aqui, temos versos bíblicos para nos apoiarmos.

Em Efésios 5:5, Paulo define avareza como um tipo de idolatria. Em sua primeira carta à Timóteo (6:10), Paulo aconselha o amigo que o “dinheiro é a raiz de todos os males”. A sabedoria de Proverbios nos ensina que a riqueza obtida com facilidade tende a diminuir, enquanto o ganho fruto do trabalho tende a aumentar.

Os versos acima, aliás, podem ser aplicados não apenas a apostas, mas ao ato da avareza, da ganância, do amor ao dinheiro, que pode ser manifestado tanto pelo desejo de ganhar em apostas como, por exemplo, no litígio por uma herança ou numa concorrência por um contrato, por exemplo.

O fato é que o cristão não precisa amar o dinheiro pois ele confia na provisão divina (Mateus 6). Além disso, ele é ciente dos males trazido por esse amor infame. E ainda, como Paulo recomenda aos Coríntios (6), mesmo tendo liberdade para fazer tudo, ele entende que nem tudo convém, principalmente aquilo que pode o dominar.

Logo, mesmo não havendo expressamente uma proibição bíblica contra as bets, basta a leitura bíblica e a ciência dos fatos envolvendo o mundo das apostas para entendermos que não é recomendável nos envolvermos.

Nem pra tudo na vida haverá um versículo bíblico dizendo expressamente que “é pecado”. Mas Deus nos deu e nos dá sabedoria (Tiago 1:5) para julgarmos cada situação, sempre procurando o caminho da luz.